A mente depressiva e suicida da adolescência ainda deixara resquícios, claro, isso seria inevitável. Mas o que predominava não era mais isso. Ela ouvira dizer que nós somos o que os outros acham de nós, e os outros já lhe viam como alegre, quem sabe até feliz. Depois de desviar seus pensamentos daquilo que sempre foi seu natural, a menina resolveu que tinha uma nova meta: viver em busca do prazer! O desafio agora era encontrá-lo em tudo o que fizesse, nos trabalhos que realizasse, nas farras com os amigos, nos amores que vivesse, na comida que degustasse, nas leituras que fizesse, nos filmes que assistisse, e, até na indignação por algumas coisas, ela precisava encontrar alguma forma de prazer.
Isso foi se tornando estranho porque com o tempo ela abria mão de coisas que julgava importantes em troca de bobagens. O sorriso verdadeiro, tesouro tão precioso por ser raro, foi banalizado. Agora ninguém achava graça nisso mais, já que era em troca de nada, era gratuito e abundante. E ela foi se perdendo, sem saber mais o caminho de volta. Sem saber se queria continuar com isso ou voltar a ser normal e enxergar que o mundo é uma mazela sem cura. Doía perceber que aquilo que inicialmente lhe parecia tão simples tornara-se tão estranho, tão difícil de sustentar.
E o sorriso começou a tornar-se raro, e de uma forma progressiva foi dando lugar a uma forma apática. Ela resolveu entrar naquela máquina que deixa as pessoas iguais para aprender a saber a hora certa de pensar as coisas certas, dizer as coisas certas, fazer as coisas certas, conversar com as pessoas certas, rir das piadas certas, e aí sim, finalmente ela poderia fazer parte da tal da sociedade. Ela nunca entendeu porque as pessoas se submetiam àquilo, mas agora começava a fazer um pouco de sentido. Era a diferença que dava medo nas pessoas, e ela viu que poderia parar de ser esquisita e mal vista por todas aquelas pessoas se entrasse na máquina.
Não havia mais prazer em quase nada, a mente depressiva, que há pouco era resquícios, agora estava um pouco mais viva, mas ainda de forma fraca, porque tudo era mais ou menos nela. As coisas que dizia, ou pensava, eram totalmente frívolas e sem relevância, e aquele semblante apático até que parecia lhe cair bem. Pelo menos o resultado foi quase imediato. Todos a viam com bons olhos, acreditavam que ela havia acordado pra a vida. E ela percebeu que essa coisa de acreditar nos pensadores só a faria terminar como eles: doentes, sozinhos e incompreendidos.