Maldita Zefinha!
Só faz tudo errado, essa criatura! Ela teima em ser assim, só de olhar pra ela a gente já se irrita. Imagina você que ela sempre jura que vai passar no vestibular, e nunca saiu do canto. Gastando rios de dinheiro dos outros com cursinho.
Outro dia ela resolveu arrumar um emprego, como suas qualificações não eram lá essas coisas virou caixa de sorveteria. Ela até gostava, morria de medo de engordar convivendo com tanto sorvete à sua volta, mas foi se acostumando, e deu certo. Deu certo mais ou menos, porque foi só ela se acostumar no emprego que chegou o inverno. Inverno em sorveteria vocês sabem como é, as vendas caem, acaba sobrando pra os funcinários. Zefinha tinha acabado de ser contratada, nem a carteira tinha assinado ainda. O inverno vai ser frio esse ano, hein zefinha?!
Passa por cima disso Zefinha! Você é mais forte. Procura outra coisa. E lá foi Zefinha, tentar dar um rumo na vida. Zefinha não queria ter tempo de pensar, isso a deixava desnorteada por ter que encarar a realidade e tomar um rumo na vida. O tal do vestibular que ela tanto fugia não era a prova, a faculdade “sei lá o que” não era exatamente o que ela sonhava para a sua vida. Ela nunca sonhou em ser doutora, aqueles cursos que lhe mandavam fazer eram coisas chatas, cheias de regras da abnt e realidades lúdicas que só aqueles bobocas do campus acreditavam.
Rodando em circulos, zefinha queria colo. Mas ao encontrar seus amigos percebeu que pedir colo era demonstrar fraqueza, e repetir isso era se tornar chata e indesejável. Ela morria de medo de se tornar indesejável, mal sabia a pobre que já era exatamente essa pessoa.
Ela colocou a culpa em seus óculos. Disse que se não usasse óculos teria uma aparência melhor e sua vida teria outro rumo. Com a alergia às lentes de contato só restava a cirurgia, e ela morria de medo de entrar na faca. Será que ela se escondia atrás dos óculos?
Essa menina que se identifica quando lê a história da Macabéa está cada vez mais boba. Agora deu pra chorar com tudo. Imagina só!
E lá vai Zefinha, com o sorriso nos dentes (e uma lágrima nos olhos de vez em quando) fazendo o possível pra provar a todo mundo que ela é legal. Um dia ouviu numa música que tinha que sorrir quando nada mais restar. E ela sorria, só não sabia exatamente porque isso nunca ajudava muito.
E essa vontade de morrer que não passa, hein Zefinha?! O que é que você vai fazer com ela? Coisa chata ficar com esse nó dentro da garganta o tempo todo! Resolve logo isso!
…continua…