Finalmente!
Anos se passaram, traumas foram superados e tabus totalmente derrubados.
Em alguns momentos, a sensação era de que isso nunca aconteceria.
Era só uma sensação
Depois que passa você olha e diz: “era só isso?”
Perde a graça!
Não existe nada mais sem graça do que aquilo que nós já conquistamos
É como se tivessemos sido bobos até o momento de conseguir realizar tal feito
“Como eu não consegui isso antes?”, nossa ignorância nos faz questionar
Assim é a vida
A melhor forma de manter a graça, é sempre ter vários sonhos quase impossíveis.
Para, vez por outra, ter o gostinho da conquista
Mas, na maior parte do tempo, degustar sabores e dissabores que só o longo caminho traz
Zefinha julga ser muito esperta, mas não é. Todos os dias quando acorda, ela liga o som do seu quarto. Na gravação tem um homem de voz mansa, que manda ela repetir 39 vezes a frase “Eu sou especial” com isso ela consegue sair de casa de cabeça erguida, e seguir a vida difícil que tem.
Quando chega na faculdade, sempre atrasada, ela nem percebe a cara feia do professor. O professor não se incomoda só com o atraso dela, ele se incomoda com tudo nela. O fato de que ela não tem um carro e chega na aula molhada da chuva que entrou pela janela aberta do ônibus, com a roupa simples feita por ela mesma, e com o contraste que ela cria dentro daquela classe.
Zefinha incomoda porque ela é o retrato do mundo lá fora, aquele mundo que eles discutem com tanta convicção nas aulas de sociologia mas nunca conviveram de perto.
Ela ignora o incômodo que causa porque senão seria impossível entrar naquele ambiente hostil. Mas a esperteza dela acaba aí, porque é exatamente esse comportamento dela que faz com que a igorancia dos outros continue reinando. E até alguem romper com esse paradigmas eles vão continuar se achando pessoas que têm consciencia social, mesmo não fazendo ideia do que seja isso.
A certeza de que aquele sentimento nunca se repetiria era uma segurança na cabeça dela. Ela tinha certeza de que aquilo havia sido um momento infantil, que ela criou só para suprir a falta de uma história real.
Coitada! Não soube como reagir ao se deparar com as mesmas sensações depois de 8 anos. Tudo acontecendo igualzinho, o frio na barriga, aquela imagem na cabeça o dia inteiro, as músicas bobas mexendo com ela, aquela sensação de inquietude o tempo inteiro, e principalmente, a esperança de que o outro lado estivesse sentindo alguma coisa também.
Ele, mesmo sem perceber o que estava acontecendo, dando milhões de demonstrações de que nada tocou por ali, e ela encontrando sinais em atitudes completamente nada a ver, do tipo de coisa que só fazia sentido na cabeça dela.
Mais uma vez ela caiu nessa armadilha. Logo agora, que ela já se achava tão fria e segura, percebeu que estava mais vulnerável que todos os outros. Se privar de sofrer deu certo, mas não por muito tempo.
O que fazer com essa sensação de desespero que resolveu tomar conta dos dias dela? E essa assombração que ela tem que carregar? Tanta coisa pra fazer, tantos planos pra concretizar, e ela presa na pré-adolescência. Fraca!